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Olhos fechados

Minha primeira experiência de um texto escrito a quatro mãos para este blog. Em tom de poesia. Uma poesia que eu nem sabia que havia em mim. Parceria gostosa e bem-vinda com Cláudio




Olhos fechados



Por trás daquele meio sorriso que trazia comigo havia nuances que só ela enxergava. E por trás do medo dela, sentimentos que só eu conseguia decifrar. E porque a via, eu a alcançava. A silhueta junto à janela, camisa branca, olhar displicente, maquiagem desfeita. Havia uma mudança no ritmo em que o ar dançava ao nosso redor quando eu me aproximava. Era ela. Eu sabia. 


A rotina ganhava um tom diferente. Uma única cor. A dela. Era o suficiente para aquecer as tardes frias.
Quando a noite chegava carregando o peso do dia, me abrigava entre suas pernas, ciente de ser aquele o meu lugar. Enrolava seu cabelo em meus dedos enquanto ela ria e me contava as amenidades do dia. Ao som daquele riso, o comum se traduzia em poesia. E eu bebia cada gesto, cada detalhe, cada sopro de vida que ela lançava sobre mim.


Quando nos separávamos, eu a reconstruía. Em cada passo, em cada café, em cada cigarro. Na mão da moça que ao preencher uma ficha, demonstrava ser canhota, como ela. Na escrita levemente curvada, como a dela. Nas lapiseiras espalhadas pela mesa porque ela as preferia. 


Eu a notava até quando ela não estava por perto, porque para mim ela estava em tudo.
Eu sabia. Mas por nunca ter-lhe dito, ela não soube.


E isso pouco valia. Eu vislumbrava uma vida, que não era nossa. E nem chegaria a ser. Em todos aqueles meses, eu era mais um. 


Mais um a conversar, mais um a beber, mais um tentar, mais um a mentir.


Conversava a cada almoço, bebia a cada confraternização, tentava sua atenção, mentia sobre não me importar.


Colocara ela num pedestal. No meu altar. Inspiração minha, respiração diaria. Transpiração continua. Eu padecia de uma enfermidade. Descoberta e diagnosticada séculos atrás. Era chamada popularmente do  ”mal dos poetas”, mas nos termos corretos, tinha um nome. Paixão.


Se tem uma coisa que essa mulher me fez, e muito bem feito, foi aprender a sofrer.
Eu sempre fora um sofredor mentiroso. Elevava minhas dores, escrevia escancaradamente, gritava aos quatro cantos todo meu penar. Mas depois dela….


Até um simples bilhete era motivo para rabiscar sentimentos.


Mas isso nunca abalou-a. Tampouco chegou em suas mãos. Seus olhos jamais viram sequer um poema. Jamais olharam para mim como eu os via.


Aqueles olhos de amor.


Sem eles, eu sou cego. 


Sem ela, eu sou mudo.


Sem a paixão, eu sou morte.

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