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Miséria S/A

Se somar os que vieram na ida e na volta, posso contar quatro deles. Roupas simples, mas limpas. Olhares baixos, envergonhados. E aquela mesma cadência marcante na voz.

Havia um ritmo. Nos movimentos. Nas palavras. No tempo. Nas histórias. E era um ritmo incômodo.

Lentamente, como quem já aprendeu a evitar movimentos bruscos para não causar sustos, eles se posicionavam invariavelmente próximos a catraca do cobrador, respiravam fundo e desejam um bom dia aos passageiros do ônibus. Então contavam suas histórias. A filha com uma doença de pele e uma lista interminável de remédios que a família não podia pagar. A invalidez que chegou, mas sem o consolo da aposentaria. As balas, vendidas pelo honesto que "podia estar roubando, podia esta matando", mas ao invés disso estava ali pedindo uma ajuda. "Não é esmola não moça, é trabalho. Tô vendendo a um precinho camarada".


Algumas dessas histórias eu já havia conhecido pela boca de outros personagens. A da menina com a doença de pele é clássica. Já vi pelos menos uns três diferentes contarem. O que reforça a possibilidade de ser só uma história. Mas não ameniza a sensação de impotência.

Porque quando vejo essas pessoas, penso que ninguém subiria em um ônibus para se submeter a uma situação semelhante se não estivesse realmente desesperado. E fico em uma situação desconfortável. Sei que ajudá-los pode incentivar a mendicância. Mas não ajudar me aperta o peito. 

Há alguns deles que parecem sinceros. Que conservam uma dignidade impressionante por trás da fachada de dor e vergonha. E eu penso que poderia ser eu. Penso que poderia ser alguém que eu amo. Penso... E depois tento não pensar. Me resguardo por trás da fachada de indiferença de quem vê tanta miséria, que aprende a conviver com ela, como o quadro antigo do qual não podemos nos desfazer, então guardamos no fundo de um velho baú.

E volto para casa cantarolando a música do Rappa que tão bem descreve essa situação.



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