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Meu primeiro



Havia um livro. E permitam que eu demore um pouco divagando sobre ele, porque uma coisa é um livro velho, outra é uma velha lembrança. Este se encaixa na segunda categoria.


Fazia parte de uma coleção e como ele, tinham outros seis. Grande. Capa dura. Vermelho com letras douradas já meio gastas e páginas levemente amareladas pelo tempo. Tinha cheiro de papel antigo, um cheiro bom que não sei bem como explicar, mas que me fazia pensar na solidão e na paz de bibliotecas antigas. Ficava no ponto mais alto da estante da sala. 


Eram proibidos para mim. Minha mãe zelosa, repetia incessante e enfática: “não mexa nos livros da sua tia”! Mas o não é sempre mais atrativo do que o sim para uma criança e aqueles livros pareciam muito mais importantes, muito mais imponentes do que os gibis com os quais eu estava aprendendo a ler. 


Um dia folheei um, depois outro, e mais outro. Elegi o meu favorito. Dentro dele alguém guardara um botão de rosa e achei aquilo tão lindo que o escolhi. Gostava de imaginar em que circunstâcias aquele botão tinha sido presenteado, porque uma lembrança tão delicada só poderia ser um presente. Nunca perguntei quem, como ou porque. Nunca quis saber a história. Divertia-me mais o ato de simplesmente imaginar. Não me lembro o título, nem o nome do autor. Mas lembro que era poesia. Meu primeiro contato com uma poesia que falava de amores, de espera, de agústia e de tantos outros temas que, na época, eu não compreendia bem. 


O tempo passou, os livros se foram. Minha tia mudou-se e os levou com ela. Não sei que fim tiveram. Dos responsáveis pelo meu primeiro mergulho na emoção de um poeta, ficou apenas um verso que, mesmo menina, guardei na memória para o dia em que finalmente pudesse compreendê-lo: “Ah, ficar a te esperar. E a um só tempo viver, a angústia de te perder e a alegria de te encontrar”.

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