O primeiro passo foi admitir que não estava feliz e precisava de uma mudança. É difícil admitir isso. Pareceu que eu estava admitindo uma derrota, que havia se passado tempo demais sem que eu tivesse encontrado sequer a direção a seguir. Ou então que eu estava querendo demais da vida, enquanto "eu devia estar feliz porque eu tinha um emprego, era dita como cidadã respeitável e ganhava quatro mil cruzeiros por mês". Porque eu tinha mesmo um emprego considerado bom para uma recém-formada e uma proposta de ter meu salário dobrado se decidisse permanecer nele. Mas de repente me dei conta de que já havia cometido erros demais na busca pelo melhor salário, e estava na hora de assumir os riscos e as consequencias da busca pelos acertos. E foi o que fiz. Deixei meu emprego e a segurança e carinho da casa da mamãe para partir para São Paulo em busca de um "mais" que nem eu sei direito o que é ou como conseguir. Só sei que dei um primeiro passo. E esse primeiro passo desencadeou a caminhada do meu "comer, rezar, amar" pessoal, que na verdade ainda está acontecendo.
Comer foi sem dúvida a primeira barreira. Não porque eu tenha medo de ganhar uns quilinhos a mais, já que minha genética me favorece. A questão é que eu tinha perdido o prazer e até a capacidade de comer. Minha infelicidade se traduzia na total falta de apetite. Comer tornou-se um tormento. Uma certeza insana de passar mal em seguida e colocar para fora o pouco que conseguia ingerir.
Não, não era bulimia. A única vez que forcei o vômito foi durante uma ressaca desesperada que realmente amenizou depois do ato. O que acontecia comigo era diferente. Eu não tinha vontade de comer. O simples cheiro da comida me deixava enojada. Demorava demais diante do prato tentando forçar o desejo de comer, pois sabia que precisava me manter de pé. Mas era sempre uma luta. Era sempre um desespero contido por trás das piadas e críticas de quem estava à minha volta e não entendia que o problema não era não querer comer,. era não conseguir. Era sempre um choro abafado no banheiro do trabalho depois de ouvir toda sorte de piadas durante o almoço. Era sempre a certeza de que aquilo estava me fazendo mal, sem que eu soubesse como modificar. E quanto mais as pessoas falavam e cobravam, pior eu me sentia.
Esta tem sido a primeira e até agora mais bem-sucedida busca. O resgate do prazer de comer. Acho que essa mudança de cidade se refletiu em uma calmaria, uma baixa na ansiedade e facilitou minha reconciliação com a comida. Ainda como pouco, mas finalmente tenho comido por prazer e não por obrigação.
Mais relaxada com esse aspecto, tenho lutado pelo segundo ponto: rezar. Há alguns anos eu perdi a minha fé. Tentei buscá-la em diversas religiões e crenças, mas continua perdida. E acreditem quando eu digo que faz muita falta. Porque fé é também conforto, é também certeza. É um fio que te segura e te mantém longe do desespero. Obviamente não me refiro à fé cega, fundamentalista. Eu busco uma fé mais simples, que me traga um sentimento de esperança como o que vejo refletido nas pessoas da minha família que são religiosas. Houve tempos em que tive orgulho de professar minha falta de fé. Hoje tenho certa tristeza. E hoje volto a buscá-la.
Quanto a parte de amar... Bem, no momento estou aprendendo a amar a mim mesma. O último homem por quem me apaixonei fez um belo estrago na minha auto-estima e no meu amor-próprio. E hoje que percebo que ele é só alguém que não consegue fazer sequer a si mesmo feliz, consegui levantar a cabeça e seguir adiante. Consegui me livrar dele. Consegui não ligar mais. Não buscar mais desculpas para fazer algum contato, ainda que por e-mail. Consegui, acima de tudo, não sentir mais falta dele. E estou me apaixonando por mim mesma. Perdidamente. Essa é possivelmente a lição mais difícil. Mas estou aprendendo. Estou abrindo o coração. Só falta agora alguém entrar.
Têm razão os que dizem que só se cura um amor antigo com um novo amor. Só que esse novo amor tem que ser por nós mesmos.









3 comentários:
Bom vê-la (ou lê-la, existe isso?) dessa maneira outra vez. Pessoal é como deve ser.
Saudades!
Beijos
Mi
Por acaso encontrei seu blog na internet, e devo dizer que fiquei viciada em ler o que vc escreve. Li tudinho ate o final(ou inicio rsrsrs)!!!
Muito bommmmm!!!
Que bom que gostaram do blog. Voltem sempre, que eu prometo atualizar mais!
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