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Receita de consciência política


Não sou especialista em sociologia, política ou áreas afins, mas tenho uma opinião de quem já venceu meia dúzia de dificuldades e gosta de perder tempo observando o mundo. E nessas observações, vi um crescimento natural da temática democracia nos debates formais, nas notícias e conversas de mesa de bar. O período favorece: às vésperas da eleição, muita gente tem teorias e sugestões sérias, embasadas e respeitáveis ligadas ao assunto.

Muito se fala em democracia, em cidadania, em voto consciente. Acho isso ótimo e saudável para o país. Mas ainda sinto falta de ver nossos intelectuais questionando a educação. Sinto falta, acima de tudo, de ver nossos intelectuais questionando esse círculo vicioso de miséria que alimenta a política mesquinha feita com uma freqüência incômoda no Brasil.

Me pergunto se temos uma democracia de fato. Lembro então, de Gilberto Dimenstein que afirma que "não existe democracia quando não se tem liberdade de escolha e não existe liberdade de escolha quando não se tem educação". Quando observo nosso sistema educacional desconfio que, por essas bandas, a democracia só existe no direito. E esta é só a ponta do iceberg tupiniquim.

É claro que o voto consciente é importantíssimo para a manutenção de uma democracia séria e fortalecida. Mas como exigir do trabalhador mediano, que enfrenta uma carga horária de trabalho pesada, longos trajetos em um transporte público na maioria das vezes cheio e desconfortável, e um mês que, invariavelmente é maior que o salário, que acompanhe os acontecimentos do planalto a fim de se conscientizar e exercer plenamente sua cidadania?

Hoje eu sou jornalista. Trabalho bastante, mas tenho tempo de ler os jornais, de acompanhar os acontecimentos, de tomar um vinho enquanto falo de absolutamente tudo com meus amigos. Mas não foi sempre assim. Eu já fui peão de produção de fábrica, já encarei uma carga horária de 12 horas por dia em pé. E quando eu chegava em casa, só queria comer e dormir. Na TV, no máximo uma novela, um programinha que não exigisse muito raciocínio porque meu cérebro depois de um dia tão cansativo, nem funcionava direito.

Estudar então, era um sacrifício a mais. Perdi a conta de quantas vezes dormi em sala de aula, de quantas noites passei em claro, lutando contra o sono para tentar entender alguma coisa do conteúdo que via em sala de aula. Até o dia em que apareceram outras oportunidades de trabalho menos estafantes.

Não é preciso um doutorado para compreender que quem encara uma rotina assim não vai ter cabeça para se preocupar com temas como política. E minha situação não era das piores. Eu não tenho filhos, não sustento uma casa, não cuido de uma família. Mas a maioria das pessoas faz tudo isso, às vezes com muito menos. Como cobrar desses tantos brasileiros que acompanhem acontecimentos, prestações de contas, projetos, idéias? Por isso minha certeza de que não é desinteresse, não é falta de consciência, não é comodismo. É cansaço, é descrença.

Outro tema que para mim é muito mais complexo do que parece é a questão da compra do voto. Esse processo reflete problemas que vão muito além da troca de favores. Uma promessa de emprego, uma cesta básica, um punhado de materiais de construção podem parecer pouco para alguns, mas são motivo de grande gratidão para quem não tem nada. Pessoas para as quais as políticas públicas nunca chegam reagem com lealdade a quem lhes dá a mão. E infelizmente há sempre alguém disposto a tirar proveito disso.

Quando paro para pensar em todas essas coisas chego à uma conclusão simples, mas fundamental: para ter uma democracia de fato, precisamos de consciência política. Só que a consciência política de um povo tem a ver, antes de mais nada, com justiça social.

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1 comentários:

Alê disse...

Se és especialista ou não, suas palavras traduzem de forma simples a mais pura realidade. Parabéns pelo texto.